Arte de Mergulhar / Art of Diving

[English below] Durante o período de isolamento social, ocasionado pela pandemia do Covid-19, muitos de nós voltamos a vasculhar as gavetas, reorganizar os armários, os papéis, a cabeça e o coração. Uma espécie de retorno às memórias esquecidas pela aceleração da vida, das tarefas, do trabalho e do cotidiano. Tudo parou e só era possível voltar na linha do tempo para buscar conforto e sentido.

Eu, particularmente, revisitei muito esse pequeno acervo pessoal e acabei me deparando com o meu diário de mergulho, que tinha quase certeza que tinha perdido em algum lugar. O diário de mergulho é um documento importante para os mergulhadores de cilindro, iniciantes ou não, para que gerem a memória de seus mergulhos. Quais equipamentos foram utilizados, condições de mar, condições do tempo, quantos minutos embaixo d’água, consumo de oxigênio… Além da sua inegável importância, este meu diário de mergulho tornou-se especial, porque registrava histórias e memórias também invisíveis, daquelas que ganham sentido apenas quando a história é contada.

Por isso conto. Iniciei o curso de mergulho de ScubaDiver iniciante da NAUI, depois da insistência de meu amigo e supervisor de pós-doutorado. Era fevereiro de 2019, pleno verão em Salvador-Bahia. Eu relutei em me matricular por conta das minhas condições financeiras e excesso de trabalho na universidade. Mas depois de muita insistência, aceitei. 2018 tinha sido um ano muito duro para os brasileiros progressistas, por ser ano de eleições, e sentirmos pela primeira vez a ameaça da extrema direita ascender ao poder – o que acabou acontecendo no mês amargo de novembro. Mas particularmente, tinha sido um ano extremamente difícil para mim. Minha avó materna havia falecido em março, e uma grande amiga – professora, historiadora, também carioca vivendo na Bahia – que trabalhava comigo na universidade, também faleceu de forma muito inesperada e rápida, no mesmo amargo mês de novembro das eleições presidenciais. Diante da dor, o tempo e o mar foram me ajudando. Mas as aulas de mergulho foram ainda mais curativas. E hoje agradeço a insistência do meu amigo e o dinheiro emprestado para pagar o curso. Eu realmente precisava.

Assim, numa manhã de fevereiro parei na praia de Boa Viagem, diante de uma casa amarela de portão vermelho. Ali começava um período curto, mas muito intenso da minha vida. Eram momentos sagrados em que eu me encontrava com o mar, o silêncio das areias e o compasso da minha res-piração. Neste mesmo primeiro dia, as condições do mar estavam tão boas, que nossos instrutores de mergulho nos batizaram no naufrágio do BlackAdder. Depois do mergulho, escrevi no livro de registro da escola de mergulho Águas Abertas:

“Hoje foi um dia paradigmático. Mergulhar na Baia de Todos os Santos e ver o colorido das esponjas do mar, dos ouriços, dos peixes, das arraias… Ficar em silêncio observando uma chuva de peixes prateados foi incrível. Me senti em contato com a natureza, fiquei maravilhada e ainda não parei de sorrir.” (14.fev.2019)

Na verdade, tinha sido tímida no registro, porque submersa, quando os peixes prateados de Yemanjá me abraçavam com seu nado ligeiro, eu chorei debaixo da máscara. A vida estava ali se apresentando em toda a sua beleza e me dizia que não havia tristeza que o azul turquesa do mar não lavasse e levasse. Eu só precisava ficar em silêncio, no Olokun, pra depois subir e pisar com firmeza na terra.

O encontro com as águas do mar e toda sua explosão de vida me levaram, de forma despretensiosa, a fazer notas diferentes no meu diário de mergulho. Troquei as palavras pelas imagens, e tentei traduzir pra mim mesma as delicadezas da arte de mergulhar, com ou sem experiência, na profundidade ou no raso. Essa é a história por trás das imagens.

Agô! Odoyá!


During the period of social isolation caused by the Covid-19 pandemic, many of us went back to rummaging through the drawers, rearranging the cabinets, the papers, the head and the heart. A kind of return to memories forgotten by the acceleration of life, tasks, work and everyday life. Everything stopped and it was only possible to go back in the timeline to seek comfort and meaning.

I, in particular, revisited this small personal collection a lot and ended up coming across my diving diary (logbook), which I was almost sure I had lost somewhere. The diving diary is an important document for scuba divers, beginners or not, to manage the memory of their dives. What equipment was used, sea conditions, weather conditions, how many minutes underwater, oxygen consumption … In addition to its undeniable importance, my diving diary became special, because it recorded stories and memories that were also invisible, those that make sense only when the story is told.

That’s why I going to tell. I started the NAUI ScubaDiver beginner’s diving course after the insistence of my friend and postdoctoral supervisor. It was February 2019, midsummer in Salvador-Bahia, Brazil. I was reluctant to enroll because of my financial conditions and overwork at the university. But after much insistence, I accepted. 2018 had been a very hard year for progressive Brazilians, as it was an election year, and we felt for the first time the threat of the extreme right to rise to power – which ended up happening in the bitter month of November. But in particular, it had been an extremely difficult year for me. My maternal grandmother had passed away in March, and a great friend – a teacher, historian, also from Rio de Janeiro and living in Bahia – who worked with me at the university, also died very unexpectedly and quickly, in the same bitter November of the presidential elections. In the face of pain, time and the sea helped me. But the diving lessons were even more healing. And today I am grateful for my friend’s insistence and the money borrowed to pay for the course. I really needed it.

So, one February morning I stopped at Boa Viagem beach, in front of a yellow house with a red gate. There, a short but very intense period of my life began. These were sacred moments when I met the sea, the silence of the sands and the pace of my breathing. On this very first day, the sea conditions were so good, that our dive instructors baptized us in the BlackAdder wreck. After the dive, I wrote in the record book of the diving school Águas Abertas:

“Today was a paradigmatic day. Diving in the Bay of Todos os Santos (All Saints) and seeing the colors of the sea sponges, the sea urchins, the fish, the rays… Being silent while watching a shower of silver fish was incredible. I felt in touch with nature, I was amazed and still haven’t stopped smiling. ” (Feb 14, 2019)

In fact, I had been shy on the record, because submerged, when Yemanjá’s silver fish hugged me with their light swim, I cried under the mask. Life was there presenting itself in all its beauty and it told me that there was no sadness that the turquoise blue of the sea did not wash and take away. I just needed to be silent, at Olokun, and then go up and step firmly on the ground.

The encounter with the waters of the sea and all its explosion of life led me, in an unpretentious way, to make different notes in my diving diary. I exchanged words for images, and tried to translate for myself the delicacies of the art of diving, with or without experience, in the depth or in the shallows. That is the story behind the images.

Agó! Odoyá!

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